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A maturidade do adulto, num filme dos anos 50

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.12

A minha caminhada voltou a aproximar-me deste rio. Talvez tenha ouvido de longe o seu sussurro, na voz da Marilyn: I can hear the river call… come to me … Desci, pois, até sentir o barulho suave da água sobre as pedras da margem. Um sorriso ilumina-me de repente: pelos vistos, não me consigo afastar muito deste rio.

  

Hoje pego no filme de Anthony Mann, The Tin Star (1957), para continuar o raciocínio que iniciei aqui. O título pode parecer provocatório: então é preciso ir a um filme dos anos 50 para ver o que é a maturidade de um adulto? Ou dito de outra forma: então já só vemos adultos nos filmes, e ainda por cima, dos anos 50? Mas a verdade é que um adulto é uma personagem cada vez mais rara, uma preciosidade. A maturidade do adulto é, pois, uma capacidade raríssima hoje em dia.

 

O cenário é muito típico dos filmes dos anos 50 no oeste: uma cidade temporária, de madeira, em que cada edifício está bem identificado. A preto e branco, como as próprias personagens, os seus valores e atitudes.  

Um ex-xerife céptico da justiça e dos homens dirige-se a uma cidade para recolher a recompensa da captura de um criminoso. Os habitantes da cidade recebem-no, paradoxalmente, de forma hostil. Todos à excepção de quatro personagens: o jovem xerife, o velho médico, o rapazinho meio índio e a mãe do rapazinho. Cada um por razões diferentes. O jovem xerife condicionado pelo ideal de justiça, o velho médico formado pelo ideal do respeito pela vida humana, o rapazinho pela sua natureza afável e ingénua e a mãe do rapazinho pela sua confiança primordial nas pessoas.

 

Como os melhores filmes do oeste dos anos 50, vemos desenrolar-se à nossa frente as diversas facetas da natureza humana: o medo e a desconfiança do grupo que funciona pela dependência mútua, mas também capaz de reconhecer os melhores de si e de por eles se sentir inspirado; a sensatez, tranquilidade e bondade do velho médico; a capacidade de empatia e confiança, da mulher afastada do grupo por preconceitos raciais; a afabilidade e ingenuidade do rapazinho; o ódio básico e desejo de poder, mais do que de vingança, do assassino; a avidez estúpida e primária do ladrão-assassino, sem capacidade de gratidão ou empatia; a empatia e gratidão do ladrão, irmão do ladrão-assassino.

 

Mas é à volta das facetas das personagens mais complexas deste cenário, o ex-xerife e o jovem xerife, que gostaria de desenvolver o tema da autonomia do adulto.

 

Vemos o idealismo do jovem xerife sobrepor-se ao bom senso e ao próprio instinto de sobrevivência. A namorada insiste com ele para largar aquela estrela de xerife, não quer transformar-se numa viúva, e lembra-lhe o que aconteceu ao xerife anterior. O jovem xerife agarra-se à estrela como a um símbolo de coragem, o ideal de justiça, manter a lei e a ordem. Embora a sua teimosia nos possa surgir como altruista e elevada, mesmo sacrificial, há qualquer coisa de imaturo nesta atitude, como um adolescente que quer provar aos outros a sua bravura e coragem. Ainda não estamos na autonomia do adulto.

 

O ex-xerife já perdeu as ilusões de justiça, da lei e da ordem, sabe tratarem-se de ideias que só raramente funcionam e, mesmo quando funcionam, deixam para trás morte e destruição. Ele é pela vida, nada se sobrepõe a esse valor. Nesse valor fundamental acompanha o velho médico. Só se afasta dele na questão da auto-defesa, na preservação da sua própria vida, não se expondo a riscos desnecessários. Mas no momento decisivo sabe qual é a sua prioridade: coloca a vida do rapazinho acima de qualquer justiça, lei ou ordem.

 

A maturidade do adulto está, pois, nesta personagem que nos surge tão imperfeita: cepticismo, desencanto e desilusões relativamente à natureza humana e ao funcionamento dos grupos que já viu como facilmente se transformam em bandos; preconceito racial que, como reconhece após conversas esclarecedoras com a mãe do rapazinho, reflecte a forma como foi educado; uma distância defensiva relativamente aos afectos, embora a nostalgia dessa harmonia familiar se mantenha.

 

Um adulto é capaz de se distanciar do condicionamento grupal, não está condicionado pelo desejo de aprovação social. Um adulto é capaz de reconhecer os próprios erros, auto-avaliar-se, corrigir a sua atitude. Um adulto é capaz de sentir a dor da perda, não a tenta compensar com o ódio destruidor ou o desejo infantil e primário de vingança. Um adulto está mais próximo da sua vitalidade e, por isso, é capaz de empatia e respeito pelos outros. Um adulto tem as prioridades no lugar certo, defende o valor primordial da vida: a vida do rapazinho é muito mais importante do que o respeito pela integridade física de um assassino de forma a cumprir a lei.

 

 

Apenas uma cena que descobri no youtube:

 

 

 

 

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publicado às 17:05


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